patrícia noronha

um dia, um rato, um sapo

Foram as primeiras palavras que vieram.

Um dia,
resolvi fazer este blog para escrever umas asneiras e outras nem tanto. Queria escrever pra ninguém ler.
Não escrevo bem.
Meus textos são exagerados, cheios de adjetivos e superlativos, chatos, quase sempre na primeira pessoa, num tom meio intimista-melancólico-vítimico, conseqüência da indignação pela falta de reconhecimento do resto da humanidade em relação à essa mortal que aqui escreve. Com um quê de auto-piedade que chega a ser constrangedor. Sim, uma das neuroses que desenvolvi tem matizes paranóicos e egocêntricos, mas estou em vias de superá-los, quero crer.

Ontem mesmo eu apaguei um texto que havia escrito aqui. Fiquei com vergonha. O texto fazia uma ginástica que escancarava um raciocínio lógico no mínimo equivocado. Começava falando sobre paz e plenitude, passava a abordar o Yoga e a meditação, mostrava dois vídeos de um fulano esclarecendo essas duas atividades (vídeos bem interessantes), em algum momento associava plenitude e paz com a velhice, para enfim, ainda bem, terminar achando todo o escrito uma grande bobagem, uma exposição da relação non sense entre conceitos errôneos.
E, o pior, era sério.
Trabalhei nesse texto por mais ou menos uns cinco dias e apaguei.
Dá vontade de recupera-lo e publica-lo novamente, de tão ruim que é, hahaha!

Um rato.
Não sei por que escrevi a palavra rato. Não tenho nenhuma história com ratos. Minto. Há uma traumatizante, de anos atrás, uns 10, quando eu morava em uma chácara em Barão Geraldo, Campinas. Mas deixo-a para outra oportunidade.

Há outra, ocorrida há pouco mais de uma semana, quando tivemos, eu e minha filha Mariá, a certeza de que há um camundongo que visita nossa cozinha à noite. Eu já havia visto um vulto escuro correndo para debaixo da geladeira. Mas eu olhei e não achei nada, vi de novo o vulto, chequei e nada, aí resolvi acreditar que era ilusão idiótica.

Nunca houve problema com ratos aqui em casa. Até que deixei um queijo curando em cima da pia e no dia seguinte ele estava todo roidinho. Blaaargh! Que nojo! Sentimento ambíguo, pois não consegui deixar de achar fofinho, credo. De qualquer maneira, dá muita dó matar, mas vejo que não é dó nada, é nojo de encontra-lo morto de veneno. Tenho que resolver mais isso ainda esse ano, envenenar um rato.

Um sapo,
sapo, sapo…Por que “sapo”?
Sei lá, sapo é uma das carências de uma cidade como São Paulo, pelo menos no bairro perto do centro onde moramos. Sinto falta de uma sinfonia de sapos à noite. Sapo-martelo, coisa e tal. Só me dou conta de que sinto falta quando viajo pros lugares em que os sapos conseguem viver. Esses lugares são geralmente limpos, ecologicamente falando, com um riozinho ou pântano ou cachoeira ou mata ou tudo isso junto.

Existem uns sapões que são extremamente simpáticos e para mim todos os sapões assim se chamam Clóvis.

É que lá na Fazenda Serra, em São João da Boa Vista, cidade onde passei a maioria dos melhores momentos de minha vida (minha família é de lá), havia um sapo, que se chamava Clóvis, que vinha todas as noites à varanda comer os besouros que caíam no chão, doidos de lâmpada e lampião. O Clóvis comia muitos besouros a cada noite, comia tantos que depois mal conseguia andar. Ele era grandão e muito lento. Sempre que íamos pra Serra ele aparecia à noite. Demorei a entender que não era sempre o mesmo sapo que vinha e, portanto, que aquele não era o Clóvis, mas era um dos Clóvis.

Num primeiro momento fiquei desapontada. Achava que o Clóvis era um sapo muito especial que vinha sempre nos visitar quando estávamos por lá, nas férias, nos feriados, nos finais de semana.

O tempo passou e eu crescí. Até hoje, já envelhecente, a cada vez que cruzo com um sapão simpático se banqueteando nas varandas dos diferentes bucólicos lugares que tive, e tenho, a sorte de freqüentar no correr dos anos, me surpreendo cumprimentando “oi Clóvis”, ou apresentando o Clóvis a alguém.

O que? Se eu já pensei em beijar o Clóvis? Como no conto de fadas?
Cruz-credo! Já pensou se me aparece no lugar dele assim, de repente, puf, um príncipe?
Preferí não correr o risco.

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a idade de um corpo

As penas de histórias várias, asas que levam a um caminho só de ida.

As penas de Naípe com bolo de chocolate, as histórias que contam e que um outro revela. Histórias escondidas e evidentes, é tudo assim: direto e simples.

Difícil jorrar sem concentração, solto…
Fios soltos na noite
Ipês e flôres no rio

Sangue da carne lavrada corre por dentro e chora vermelho.
O desespero de se ver no espelho num filme rápido da pele enrugando pelos anos.

A idade do corpo…
Que idade é essa?
Não é a idade de uma vida,

É a idade de um gole d’água.

eu-criancinha-60_22

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princesa ateh

Plantei rosas nas tuas botas, e o goivo cresce no teu chapéu.

Enquanto te espero, em minha noite única e permanente, os dias caem sobre mim como pedaços de uma carta rasgada.

Junto-os e soletro as tuas palavras de amor.

Decifro-te mal porque, às vezes, uma escrita desconhecida aparece, e fragmentos de uma outra carta inserem-se na tua, e um dia e uma carta pertencentes a outro misturam-se assim à minha noite.

Espero o teu retorno, que tornará as cartas e os dias supérfluos.

E pergunto-me: será que então aquele outro me escreverá, ou será apenas noite?
(princesa ateh)

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iluminação e mestres

    A Margot me ensinou que todos os animais têm alma e que os outros animais são muito mais evoluídos que a humanidade.

    A Margot era um buda encarnado cachorro.
    Paciente, silenciosa, muito especial.
    Quando queria uma coisa parava, sentava e me fitava.
    Aquele olhar ia me incomodando e me conduzia a fazer tudo o que ela queria.

    A Margot não lambia, não mordia, não latia e não chorava.
    Não gostava de contato físico muito intenso, só adorava que lhe coçassem a barriga. Apesar disso, suportava pacientemente, imóvel, meus arroubos de carinho, quando eu a segurava no colo e a balançava como a um bebê humano.

    E aqueles olhos? meus Deuses! que olhar era aquele!
    Sinto muita saudade dela e agora eu choro.
    Era um olhar de gente! de gente muito especial!

    Quando a Margot ficava fora de casa, ela não chorava, não latia, ela simplesmente sentava e esperava que sentissem sua falta. Só!

    Quando queria algo e eu fingia que não percebia seu olhar, ela fungava, fazia que coçava o nariz.
    Se mesmo assim eu não a atendesse, fingindo que não ouvia, ela encostava delicadamente os pêlos em volta de seu focinho na minha perna e pronto!, conseguia tudo!

    Nunca mais vou esquecer aquele olhar dela pra mim quando ela estava no hospital, toda cheia de água, porque seu rim não funcionava, balançando, mal se mantendo sentadinha.
    Era um olhar suplicante que me perguntava: o que foi que eu fiz de errado? o que está acontecendo comigo? por que não me levam pra casa? por que não me tiram desse lugar? Por que me maltratam tanto?

    Também nunca vou esquecer quando ela procurava os cantinhos escuros da casa pra ficar quietinha porque sabia que ia morrer.

    A Margot tinha apenas dois anos.

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segundo ko murobushi

    No kabuki antigo, os corpos no início eram inclinados, não eram perpendiculares e planos, não eram naturalistas. Existia uma posição inclinada que ainda não encontrou uma formalização e essa busca pela formalização é que é a dança verdadeira.

    No butoh também, quando se começa a dançar o butoh busca-se algo e é essa busca que é genuinamente butoh.

    Eu não concordo com a sistematização do butoh, não acho que ela exista, pois o butoh é busca por uma formalização mas não é a forma, quando chega-se à forma, foge-se do butoh.

    A velocidade de tudo aumentou com a Internet e o corpo acaba se esbarrando no problema da medicina. Se trocamos o coração no transplante, já já poderemos trocar nossa memória. A cultura se modifica, o ser vivo se modifica. Não concordo que seja só o corpo japonês que dança butoh ou que o corpo japonês é o corpo ideal para se dançar o butoh.

    Acredito que carregamos nosso próprio corpo, independentemente de sermos jovens ou idosos, orientais ou ocidentais. É como aqueles dois estudantes que vão à mesma escola, são da mesma idade, frequentam a mesma classe, os mesmos colegas, só que um deles vai alegre e saltitando para a escola enquanto que o outro se entristece, se aquieta, quer faltar, chora e se amua. Quando o corpo não quer ir, temos que encontrar um meio de carregar esse corpo e levá-lo adiante, porque temos que ir para frente.

    Eu sou um tipo de pessoa que carrega o corpo. Uma pessoa leve que pesa 50 kg, quando perde um amor, fica como uma pessoa que pesa 150 kg, ela não consegue se levantar. O butoh é isso: temos que levantar esse corpo que não quer mais se levantar.

    Há um bloqueio de movimentos e aí se forma uma doença. Qual o limite do que é considerado uma doença? Andamos normalmente, com saúde, mas existem vários tipos de andar. Carregamos nosso corpo mas cada um anda diferentemente e dependendo das circunstâncias esse movimento já é dança. Eu pergunto: será que o peso que temos não é uma ficção?

    Nos workshops eu peço que andem como se estivessem voando no céu. E as pessoas executam algo que é uma falha, ou uma troca de canais de percepção, e não uma fantasia. Existe em quem dança o poder de influenciar os outros que estão presentes vendo. A dança é o poder de influenciar quem está vendo.

    O que se precisa para dançar butoh? Dançar butoh é fazer um acontecimento, produzir um evento ou uma notícia. Todo dia nós estamos morrendo. Quando somos bonitos, ou melhor, tornar-se bonitos ou crescermos bonitos quer dizer que já temos a morte dentro de nós, que já estamos indo em direção à morte. O dente cai, o cabelo cai, perde-se um pouco do corpo todos os dias.

    O problema da doença se torna uma surpresa para si próprio, surpreender-se a si próprio é uma nova forma de vida e se estamos surpresos seremos capazes de surpreender. Fazer o acontecimento significa viver.

    Não precisa ser um susto enorme. São surpresinhas. Quando acontece isso conseguimos carregar nosso corpo quando ele não consegue mais andar. Essa é a surpresa! E é aí que mora a dança.

    Butoh é tentar carregar o corpo que não quer levantar e se surpreender nesse período, criando um evento, um acontecimento.


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segundo kazuo ohno

k

Quando estão tristes ou contentes, vocês não conseguem enxergar nada. Fecham os olhos e não vêem mais nada. Mas não é possível dançar de olhos fechados. Os olhos devem estar bem abertos e dança-se sem olhar.
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O olho do dançarino é importante no butoh e não se deve confundir com o olhar teatral. O olho do dançarino está mais próximo do olho de um peixe morto, que não transmite o que está dentro mas atravessa o ambiente e segue adiante.
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O inseto corre em direção à luz sem desejo ou vontade, mas por necessidade. Assim deve agir o dançarino de butoh.
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Os homens vivem com a consciência de que morrerão, no entanto esperam ter uma vida eterna. A eternidade é um dos argumentos do butoh. Ela cabe no instante, e esta consciência serve para ultrapassar as barreiras do corpo. A morte é inevitável, não podemos viver sem olhá-la. Não podemos fechar os olhos mas podemos torná-la alegre.
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É preciso desabrochar até onde for possível, com toda alma.

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tributo de Anna à Margot

Sunday, December 30, 2007


titititititit

margot – assim: ela mesma.

rainha margot – assim: numa pose de monge e com os pelos bonitos, pós-banho, com alguma chuquinha que não fosse tão ridícula e um olhar: “com que tanto vcs se preocupam?”. comendo as rações mais caras.

margorda – assim: meio gordinha.

titi – assim: ela mesma.

gogo cross – assim: no corredor, metade de carpete, metade de madeira, velocidade impressionante, correndo atrás dos brinquedinhos: um cheese-salada com cordinhas, um triângulo tridimensional fofo de pelúcia, uma caixa de leite longa-vida (entrava na cabeça dela e virava um capacete!), um saquinho de supermercado cheio de ar. incansável. era um jogo institucionalizado, não era improvisado. tinham que se sentar duas pessoas, de perna de índio e estimulá-la pra cá e pra lá arremessando os objetos engraçados.

titi na sua – assim, ela mesma, mas, de repente, cansei e parei.

quando bebê, não conseguiu controlar a felicidade e fez xixi no meu tênis puma (com meu pé dentro dele).

crescidinha, aprendeu a se controlar mais e resumiu a felicidade naquela chacoalhada de quadril. parecia que ela ia decolar (mas acabava apenas espanando um pedaço do chão)

na serrinha, se divertiu como eu nunca tinha visto um ser se divertir, numa relação de sado-masoquismo com a charmosa e very smart belinha, mas a margot também tinha seu lado smart na brincadeira. estava amando e muito suja.

a margot me ensinou uma coisa: quando estamos ansiosos para sair, as pessoas que vão com a gente podem demorar muito pra se arrumar, demoram para trancar a porta, não sabem descer a escada em grande velocidade… em qualquer um desses casos, devemos fazer assim: descemos e subimos a escada, de uma porta a outra, sem parar, arrastando a coleirinha, ou, no caso dos humanos, pode ser a bolsa, quantas vezes for necessário até as companhias chegarem. assim que se combate a famosa ansiedade. correr e voltar, correr e voltar, correr e voltar, opa! chegaram! vamos!

ainda não aprendi a agir assim, fico me segurando no lugar.

preciso ser mais radical, né, margot?

vou sair sem respeitar, fazer xixi nos tapetes.

quando fizer no lugar certo, vou mostrar pra todo mundo, vou ganhar presente e, quando sentir que já dei tudo de mim, vou descansar.

o mais bonito é que a margot e o ritz estão juntos num lugar que a gente inventou. um lorde inglês e uma monja budista.

como eu queria aprender o que eles devem estar conversando sobre a vida.

ps.: a bunitinha, a tititinha, a bibibinha, a dididinha… ti ti ti ti ti ti ti ti… margooooot!

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